02 de Agosto de 2020

Artigo de opinião publicado a 2 de agosto de 2020 no Jornal da Madeira sobre: Ter "ouvido" para a música

 

https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/4041/Ter_ouvido_para_a_medicina

 

Ter "ouvido" para a medicina

A expressão “ter ouvido para a música”, é frequentemente usada para designar sensibilidade e capacidades musicais, tais como o ouvido absoluto (capacidade de uma pessoa identificar ou recriar uma nota musical, sem referências externas de tom).

Na medicina, “ter ouvido” é também uma competência essencial, pois a escuta empática (ou ativa) e a comunicação responsiva são a base da relação médico-doente. Durante a colheita da história clínica é necessário ouvir o que é dito (conteúdo manifesto) e o que não é dito, mas comunicado pela expressão facial e outras manifestações de linguagem corporal não-verbal (conteúdo latente).

Para além disso, os médicos ouvem os sons internos do organismo, fisiológicos e patológicos, decorrentes da atividade cardíaca, pulmonar e de outros órgãos, utilizando o estetoscópio, um instrumento inventado no século XIX pelo médico francês René Laennec (1781-1826). É descrito pela comunidade médica que, antes desta descoberta e, desde o tempo de Hipócrates (460 a.C. - 377 a.C.), que o exame físico do tórax era realizado por auscultação direta. Os médicos ouviam os sons cardíacos e pulmonares colocando, diretamente, o seu ouvido no tórax dos pacientes. Esta metodologia era por vezes dificultada pelo sexo, idade e obesidade dos pacientes, especialmente mulheres, devido ao constrangimento social que causava.  

Em 1816, Laennec teve de avaliar uma mulher obesa com dificuldades respiratórias. Após a auscultação direta no tórax, também tentou a percussão (técnica de exploração clínica de certos órgãos internos, que consiste em dar pequenas pancadas repetidas na pele por meio de um dedo e ouvir a ressonância sentida), mas ambos os métodos se revelaram ineficientes nesta paciente. Foi nesse momento que teve a ideia de criar um instrumento para audição dos sons internos e manter uma distância digna dos pacientes. De improviso, Laennec enrolou 24 folhas de papel, obtendo um cilindro, o qual encostou uma extremidade à parede torácica da paciente e a outra extremidade ao seu ouvido. Apercebeu-se, com agradável surpresa, que poderia ouvir muito melhor os sons recorrendo a esta técnica mediada, do que por auscultação direta. Refinou a sua descoberta e chamou-o de estetoscópio (derivado do grego “stethos” que significa peito e “skopos” que significa olhar, ou seja: olhar dentro do peito). O primeiro instrumento foi um cilindro oco de madeira, com 25 cm de comprimento e 2,5 cm de diâmetro. Laennec tornou-se, assim, um pioneiro da medicina, criando a técnica da auscultação mediada ou indireta, que foi fundamental para o diagnóstico de patologias torácicas. O seu trabalho científico foi publicado em livro (“De l´Auscultation Médiate”), em 1819.

Em suma, não há dúvida que René Laennec possuía um “bom ouvido” para a medicina. O que poucos sabem é que Laennec também era músico. Não só tocava flauta, como construía os seus instrumentos (flautas de madeira). Estas competências na música e na carpintaria foram, certamente, uma mais-valia para a invenção do estetoscópio, o símbolo universal da atividade médica.

publicado por carinafreitas às 10:45 link do post
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