26 de Novembro de 2017

O meu artigo de opinião publicado a 26 de novembro de 2017, no Jornal da Madeira

 

O poder da familiaridade na preferência musical

Nos últimos 30 anos, as neurociências da música (uma subdisciplina das neurociências cognitivas) têm ajudado na compreensão dos mecanismos cerebrais subjacentes ao processamento musical. Uma questão importante, mas pouco valorizada, é avaliar o poder da familiaridade na escolha musical. Será que preferimos ouvir canções novas/originais ou canções já familiares/conhecidas? E como é que o cérebro reage a cada um deste tipo de música?

​Segundo o princípio da familiaridade, também denominado “efeito da mera exposição”, descrito por Zajonc, em 1968, quanto mais familiares estamos com algo, mais gostamos desse estímulo. Este efeito é válido até um certo limite do número de exposições, a partir do qual surge a saturação e decresce a nossa preferência. Contudo, se uma pessoa tiver controle sobre a exposição, continuará a gostar desse mesmo estímulo.

Um estudo comportamental realizado pela Universidade de Washington, em 2014, mostrou que, apesar dos participantes (todos amantes de música) referirem maior preferência pela aquisição de música nova, na realidade, quando confrontados com escolhas reais entre pares de músicas (novas contra familiares), a maioria optou por comprar as canções que já tinha ouvido mais vezes. Estudos neurocientíficos demonstraram que a audição de músicas familiares, comparativamente às músicas novas, ativa com mais intensidade, os sistemas de recompensa e de prazer do cérebro, induzindo emoções mais positivas e agradáveis.

Na verdade, o nosso cérebro gosta de estímulos familiares porque já os conhece e é mais fácil de os processar. Quando ouvimos canções conhecidas, o cérebro reconhece o padrão musical, e já sabe o que esperar. Além disso, ressoa na nossa memória eventos e histórias associadas às referidas canções. Se, além de familiar, for também favorita, a cada audição, associamos uma sensação de prazer e bem-estar, que é reforçada na audição seguinte. É o poder da familiaridade em modular a nossa resposta emocional à música.

Numa entrevista recente, alusiva aos 20 anos de carreira do cantor João Pedro Pais, perguntaram-lhe se ainda tocava, nos seus concertos, os seus sucessos antigos, ao que este respondeu: “Claro que sim. Nesse aspeto, tento seguir as pisadas e imitar o Sting. Ele vai direto ao assunto e não tem preconceito nenhum em tocar canções antigas. A primeira música que ele costuma tocar nos concertos é “Every breath you take” (êxito do grupo The Police) ou o “Englishman in New York”.

Não há dúvida que o público adora ouvir e cantar em coro canções familiares. Ainda bem que há artistas que (re)conhecem, e gostam de satisfazer, as expectativas do público.

Conclusão: a familiaridade é um fator a considerar na seleção de qualquer repertório musical, seja para fins artísticos, educacionais, terapêuticos ou mesmo comerciais. Quem é que nunca ouviu canções familiares nas lojas? É uma técnica de neuromarketing para influenciar o comportamento dos consumidores! E como transformar uma canção nova num “hit”ou êxito? As rádios sabem fazê-lo muito bem: exposição inicial e repetição, repetição, muita repetição…Primeiro estranha-se, depois entranha-se! 

 

Link para a página do Jornal da Madeira

https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/741/O_poder_da_familiaridade_na_preferencia_musical

 

publicado por carinafreitas às 13:52 link do post
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